
O fato da Kyoto Animation (KyoAni) ser um dos melhores estúdios de animação do Japão não deve ser nenhuma novidade para o público otaku. A KyoAni possui um visual acima do normal e apresenta vários slice of life de qualidade que no geral são fofos e divertidos, como Hibike! Euphonium e Hyouka. Porém, na minha opinião, o verdadeiro ponto forte do estúdio são os dramas tocantes que conseguem mostrar histórias lindas e capazes de emocionar qualquer coração de pedra, como Clannad e Koe no Katachi.
Em homenagem a Kyoto Animation, pelos seus incríveis projetos e ao ataque sofrido nesse ano; hoje vamos analisar Violet Evergarden e descobrir se o anime é realmente emocionante e se ele faz jus aos previews arrepiantes mostrados em 2016.

Em um mundo fictício, um país chamado Leidenschaftlich acaba de terminar uma guerra de quatro anos contra o Império Gardarik. Por causa disso, um momento de paz começa a se estabelecer em Leidenschaftlich e surge um novo tipo de serviço de correio para auxiliar a maioria da população analfabeta: Bonecas Autômatas de Auto Memórias. Essa nova atividade é feita mulheres jovens e bonitas que produzem cartas carregadas emocionalmente com os verdadeiros pensamentos e sentimentos das pessoas.
A partir disso que a obra começa. O anime acompanha Violet Evergarden, uma garota que apenas viveu o horror da guerra e não sabe identificar os sentimentos. Com o fim do conflito entre Leidenschaftlich e o Império Gardarik, Violet acaba indo trabalhar nos correios e lá descobre as Bonecas de Auto Memórias. Após isso, a jovem tem interesse em trabalhar nesse serviço para entender o significado de: “Eu te amo”.
Violet Evergarden é uma história sobre sentimentos. O roteiro vai sendo desenvolvido de uma maneira gradual e extremamente bem pensada, para conseguir simular todos os passos da compreensão dos sentimentos. O início começa calmo e devagar, da mesma maneira que uma introdução; e a medida que narrativa avança, a obra vai ficando cada vez mais complexa e emocional, apresentando momentos extremamentes marcantes e impactantes.
A época em que essa animação foi criada foi muito… digamos, conveniente. Hoje em dia, vivemos na era da Internet, o que acaba nos mantendo conectados com informações o tempo inteiro. Porém, mesmo que essa tecnologia tenha criado mais maneiras de nos comunicarmos uns com os outros, parece que a sociedade está se tornando mais introspectiva e menos “conectada” com pessoas “reais”.
No início, achava as Bonecas de Auto Memória algo muito artificial, e até me questionei se alguém utilizaria esse serviço. Mas depois de pensar por um tempo, cheguei a conclusão que, para mim, receber uma carta feita a mão e imperfeita, possui muito mais significado do que um email imediato e prático. Talvez a light novel tenha sido criada com a intenção de ser uma crítica à maneira como nos comunicamos atualmente e que talvez precisamos mais do calor humano “ultrapassado”.
Os gêneros da animação também estão muito bem trabalhados. A comédia é discreta, mas extremamente funcional como alívio de tensão, de modo que o anime ganha uma certa leveza e não perde o tom da história. Já o gênero de guerra serve para dar uma boa profundidade para o enredo e expandir o seu universo interessante. Mas o ponto de destaque, que já havia sido mencionado anteriormente é o drama. A narrativa tem uma carga dramática muito bem desenvolvida que geram várias cenas emocionantes e extremamente bonitas, ao apresentar várias situações tocantes, empáticas e até bem reais.
Um belo exemplo disso, é o décimo episódio. Isso é uma experiência pessoal, mas esse foi episódio de anime que mais me entendeu como um ser humano. A imersão na narrativa foi tão profunda e empática, que eu tive os mesmos pensamentos e sentimentos que a Violet havia presenciado; mostrando o quanto o roteiro é envolvente e extremamente bem construído. Ou talvez eu só seja mesmo uma manteiga derretida.

Em Violet Evergarden, a narrativa é contada por meio de várias histórias sobre clientes que contratam o Serviço de Auto Memória. Por causa disso, os personagens são basicamente divididos em dois grupos: os que não são a Violet e a própria Violet.
Os coadjuvantes funcionam como os mentores da Violet, de modo que eles ensinam a protagonista como os sentimentos devem ser interpretados. Desse jeito, acaba acontecendo uma troca mútua de experiências que permitem os personagens secundários possam se autoavaliar e assim evoluírem.
Já a Violet consegue ser muito mais interessante que os coadjuvantes. O roteiro do anime é basicamente um estudo de personagem principal. A criação da personalidade da heroína funciona seguindo o ritmo do enredo. A medida que a narrativas vai apresentando histórias mais dramáticas, isso significa que a própria Violet está deixando de ser um “boneca”, vai ganhando cada vez mais camadas de desenvolvimento e se tornando uma pessoa cada vez mais empática e cheia de sentimentos.
Por causa disso, a evolução da personagem vai ficando cada vez mais interessante e complexa a cada episódio que passa. Os sentimentos são apresentados de uma maneira bem tocante e bonita, fazendo com que a Violet aprenda a identificar os seus próprios sentimentos. A partir disso, é possível perceber o desenvolvimento da protagonista apenas olhando a feição da protagonista, que vai sofrendo alterações a cada novo episódio.
Outro assunto interessante abordado na animação é a maneira como os soldados retornam de guerras. A obra consegue inserir esse tema que mostra personagens descobrindo maneiras de superar traumas e aprendam como seguir em frente depois de vivenciarem experiências tão chocantes.

O visual de Violet Evergarden é único. A animação está espetacular com uma ótima fluidez de cenas e uma qualidade gráfica estupidamente linda. Além disso, o CGI da animação está quase imperceptível, pois a técnica é apenas utilizada em objetos mecânicos, como em veículos e nas mãos da Violet, que estão muito muito bem feitas e esteticamente deslumbrantes.
Porém, o real destaque do visual da obra é a sua direção de arte magnífica. O desenho de personagens continua com as características da Kyoto Animation, no qual a maioria das personagens femininas merecem o título de waifu pelo character design (design de personagem) lindo.
Outro ponto fora da curva da direção de arte é a sua fotografia. Os cenários extremamente bem produzidos combinados com as cores vivas e o filtro de câmera brilhoso, criam uma experiência visual bela e impactante. Além disso, com a utilização de planos abertos, a adaptação consegue mostrar o melhor das estações do ano com os seus cenários esplêndidos e dignos de serem papéis de parede do Windows.

Trilha sonora de Violet Evergarden também está muito bem feita. A dublagem da Violet feita pela Ishikawa Yui está convincente e consegue criar um tom de voz mecânico que, aos poucos, vai ganhando mais emoção à medida que a história avança.
Outro detalhe maravilhoso são as músicas do anime. A trilha musical é orquestral, linda e consegue ser extremamente versátil, já que as cenas harmonizam com as melodias, tornando-as mais impactantes e emocionais. E justamente por potencializar tanto esses momentos, chega ao ponto no qual fica difícil de escolher entre o que prestar a atenção, já que tanto a animação quanto as músicas estão excelentes.
E claro, não podemos esquecer da abertura e do encerramento. A ending “Michishirube” cantada por Minori Chihara combina muito com as cenas finais dos episódios e possui uma animação linda que mostra a beleza das estações do ano.
Mas a melhor música, na minha opinião, com certeza é a opening “Sincerely” cantada pela TRUE. A abertura possui uma voz bonita e uma melodia que se harmonizam perfeitamente e criam um tom extremamente bonito e emocional. Além disso, como a música foi feita especialmente para o anime, a letra retrata a essência da história.

Violet Evergarden é um ótimo anime. A adaptação é um obra de arte que mostra a maior beleza do sentimento humano e a sua importância para compreensão e conexão entre as pessoas.
O roteiro é fenomenal e é uma aula sobre construção de personagem, o visual é tão belo e impressionante que chega a ser hipnotizante e a trilha sonora orquestral é maravilhosa e perfeita para quem gosta de ouvir músicas para relaxar. Violet Evergarden é uma das melhores animações da Kyoto Animation e provavelmente se tornará uma das mais marcantes da sua geração. O desenho é recomendado para pessoas acima dos dezesseis anos e para um público que gosta de drama intensos e cheios de ninjas cortadores de cebola. Além disso, apesar do final ser meio fechado, uma continuação em formato de filme chegará em 2020 e provavelmente será ainda mais impressionante que a primeira temporada.
Se você conseguiu ler até aqui, agradeço muito pela consideração. Caso tenha gostado, recomende para os amigos; caso tenha alguma coisa que precise melhorar, pode ficar a vontade para comentar. Eu vou ficando por aqui e falou, até o próximo post.
Criador do ME ANIMA
























